Desenvolvimento para emancipação em grupo de assentados da CESP.

Autora: Maria Aparecida Junqueira Zampieri, psicóloga, supervisora em Psicodrama pela FEBRAP, terapeuta de casais e família, diretora-presidente da Ciclo de Mutação: Cibernética, Psicodrama e Psicoterapia em São José do Rio Preto, SP/Brasil.

 

A prática profissional fora do consultório estende-se do voluntariado a implantação de projetos vinculados a instituições governamentais ou independentes, acredito que tem ganhado propulsão e profissionalização em especial nos últimos anos com a proliferação das ONGs.

Frente as inúmeras urgências que pipocam no mundo todo o compromisso social da Psicologia, que já era propagado por J. L. Moreno desde do início do século, exacerba-se maximizado. Tal compromisso não pode manter-se atrelado por tratar-se de uma postura, acima de povo ou credo.

No presente trabalho lidamos com uma amostragem que engloba 81 famílias no interior de São Paulo, nas imediações da divisa com o Mato Grosso do Sul, no atual município de Ilha Solteira.

Clientela diferenciada por tratar-se de um grupo pertencente a um Associação de Pequenos Agricultores, originários de um assentamento efetivado pela CESP por ocasião da inundação para a represa daquela usina hidrelétrica, hoje é um grupo misto que engloba diferentes realidades com um ponto em comum: a necessidade de auto-gerenciamento, apontado pela prefeitura municipal que monitora tal grupo, como herança da CESP desde a municipalização.

Por solicitação de representantes de ambas as partes, e de representantes da associação, temos trabalhado juntos desde o ano passado, a nível de desenvolvimento humano.

Mesclando encontro quinzenais e mensais, identificando lideranças e interessados as intervenções têm proporcionado, com a continuidade de cursos paralelos que já eram parte da vida do grupo, um avanço que os participantes identificam como nítida mudança:

"A gente era até o ano passado, nós e a associação, crianças muito dependentes do pais. Hoje somos adolescentes quase adultos, por isto estamos indo atrás do que precisamos e temos que responder por nós mesmos".

Estruturada até 98 com uma diretoria formal que "falava sozinha" hoje a associação conta com dois departamentos, o de Esportes e Eventos e o de Produção e Comercialização. Grupos de produção, que estavam iniciando, com ínfima participação, com plantio de quiabo e uva e três famílias plantando manga, hoje estendeu-se para outros produtos como a pupunha e o maracujá além dos grupos de bambu (produção manual) e da conserva (doces, temperos e picles). Estão iniciando a industrialização de mandioca e o próximo projeto é o leite.

Totalmente indiferenciados quanto a própria identidade grupal, hoje identificam a prefeitura, a UNESP e qualquer possível elemento captador de recursos e/ou assessoria como parceiros ou contratados.

Trata-se de um projeto em andamento porém acredito interessante mencionar uma fala de um dos participantes no último encontro: "estamos no mesmo nível, evoluindo junto o nosso grupo nos encontros". Ali num pequeno grupo de quase quarenta pessoas haviam crianças (em especial uma garota de 9 anos, participante ativa no trabalho), adolescentes e adultos até 76 anos.

Utilizamos nesta experiência uma fundamentação mixando construtivismo social e a teoria sistêmica de terapia familiar com a metodologia psicodramática via sociodramas tematizados e ações paralelas.

Estamos estudando esta experiência na qual acredito, tal como outras tantas, possa desencadear modelos de intervenção, como uma possível saída à clausura da indiferenciação infantilizada que encontramos diversas incursões sociais.